Área Médica

Depressão em Cardiopatas


Cardiologistas devem investigar os sinais de depressão em seus pacientes, medicá-los ou encaminhá-los a profissionais de saúde mental. Essa é a nova orientação da Associação Americana do Coração, publicada na revista "Circulation". A medida também será adotada no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia.


A decisão vem amparada em novos estudos que mostram que pessoas que sofreram infartos ou que já foram hospitalizadas por problemas no coração têm até três vezes mais chances de desenvolver depressão do que a população em geral. No entanto, apenas metade dos cardiologistas tratam seus pacientes de depressão.


Os autores do artigo publicado na "Circulation" alertam que a depressão pode piorar os prognósticos e deteriorar a qualidade de vida dos pacientes cardíacos. Os depressivos tendem a deixar de tomar medicações para o controle do risco cardiovascular e a não seguir mudanças de estilo de vida recomendadas, como dieta equilibrada e exercícios físicos.


"Penso que, ao cuidarmos da depressão, poderemos reduzir consideravelmente o sofrimento desses pacientes e melhorar o resultado dos tratamentos", afirmou à Folha Erika Froelicher, professora na Universidade da Califórnia (EUA) e uma das autoras do artigo.


A partir de agora, a recomendação é que cardiologistas façam ao menos duas perguntas aos seus pacientes: nas duas últimas semanas, você teve algum interesse ou prazer em fazer coisas? Você se sente fraco, deprimido ou sem esperança?


Se o paciente responder sim para uma ou para ambas as questões, os médicos devem utilizar um questionário maior, com nove questões, para determinar o grau da depressão.

Segundo a cardiologista Ieda Liguori, da unidade coronariana do HCor (Hospital do Coração), é fundamental medicar o paciente depressivo, mas, ao mesmo tempo, a escolha do antidepressivo deve ser criteriosa para que o remédio não interfira na ação de outras drogas.


Ainda é comum a depressão passar despercebida nos consultórios dos cardiologistas, avalia Liguori. "Quando o paciente não melhora, quando não consegue controlar a hipertensão, por exemplo, o médico pensa que houve falência da medicação. Mas o problema pode ser depressão. Se não for controlada, ele não só não melhora como pode piorar."


"A pessoa com depressão não consegue parar de fumar, não faz dieta, dificilmente faz atividade física e tende a tomar as medicações recomendadas pelo médico de maneira irregular", explica o psiquiatra Renério Fráguas Júnior, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.


Doença coronariana


Segundo Fráguas Júnior, estudos mostram que a depressão aumenta em 80% o risco para doença coronariana e suas complicações. "Ainda assim, a associação [americana de cardiologia] sempre foi muito cautelosa [em reconhecer a ligação]. Mas chegou um momento em que, se não fizesse isso, seria repreendida por omissão."


O psiquiatra José Carlos Zepellini diz que tem percebido "com muita freqüência" pacientes deprimidos desenvolvendo doenças cardíacas. "Tanto que, quando recebo um caso novo de depressão, logo encaminho para o cardiologista para uma avaliação. Até em jovens tenho notado isso."


Para o cardiologista do InCor (Instituto do Coração) Protásio Lemos da Luz, é importante que o médico atente para o fato de que a depressão pode se manifestar de diversas maneiras, mas que, antes de mais nada, é preciso excluir a possibilidade de uma doença orgânica --como um hipotireoidismo ou um câncer-- que possa ser confundida com depressão.


Ele também explica que não basta apenas a indicação de antidepressivos. "Não existe pílula mágica. Às vezes, é preciso um trabalho psicológico para tratar as causas da depressão."


O psiquiatra Fráguas Júnior reforça: "Tem que acabar com aquela crença de que a pessoa pode vencer a depressão com a força de vontade. Isso vale se ela não está com transtorno depressivo. Se ela estiver [com o transtorno], é justamente nesse momento que a força de vontade não dá mais conta."

 

 

Fonte: Folha online

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